Marcos Antonio Folador

O autor possui Licenciatura em Geografia, cursa mestrado em Geografia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Francisco Beltrão, e atua como professor de Geografia nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio no estado do Paraná.

 

Font: Cidade Nova | Setembro 2023 – O amor dos amores

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Quando nos deparamos com a escola, encontramos diversas realidades, perspectivas e sujeitos que ali compõem suas trajetórias, como professores, funcionários e estudantes.  A pluralidade ali expressada, especialmente entre os jovens estudantes, cristaliza as heterogeneidades da sociedade, a partir dos diferentes marcadores sociais, sejam de classe, território, religião, gênero, sejam de orientação sexual etc.

A escola, para muitos estudantes, torna-se local de passagem e/ou obrigação, além de socialização, tendo como desafio não só a formação de forma integrada, com base no conhecimento científico, mas também a formação de seres humanos críticos, participativos, ou seja, cidadãos.

Para tanto, como a escola pode possibilitar um espaço que ofereça condições que deem oportunidade de os estudantes se sentirem mais parte disso? Sendo integrados, ouvidos e considerados? Compartilho aqui a experiência de um jovem de 23 anos, atualmente professor de Geografia e mestrando em Geografia. Ele é do município de Francisco Beltrão, no interior do Paraná, com cerca de 96 mil habitantes.

A experiência do jovem iniciou em 2015, quando participou do processo eleitoral para o Grêmio Estudantil de sua escola, uma instituição pública com cerca de 1.200 alunos e responsável por abrigar o ensino fundamental, ensino médio “normal” e cursos técnicos.  No segundo ano do Ensino Médio, formou, com demais colegas, a intitulada “Chapa 01”, a qual era constituída por estudantes de turmas variadas, de modo a contemplar uma relativa diversidade naquele espaço.

Durante o processo, três chapas disputaram a representação do Grêmio Estudantil, e por felicidade, a chapa 01 venceu. Atuar no Grêmio Estudantil se tornou um divisor de águas para entender o espaço escolar, com todas suas contradições, dificuldades, facetas, assim como o que significava representar toda uma comunidade de estudantes.

Dois fatos marcaram tal experiência: o primeiro foi a organização de manifestações contra a “Lei da mordaça”, que estava em implementação no estado do Paraná no fim de 2015, e o segundo foi a onda de ocupações escolares em 2016, em que mais de 850 escolas foram ocupadas por estudantes só no Paraná. A pauta se forjou contra a reforma do Ensino Médio e a chamada “PEC do fim do mundo”, criando o teto para os investimentos federais.

Essas experiências realizadas em âmbito interno, isto é, na própria escola, e externo, com pautas estaduais e nacionais, mas que atingiam diretamente os estudantes no presente e no futuro, possibilitaram entender a escola como espaço de pertencimento. Com efeito, esse é um desafio: fazer com que as juventudes entendam a escola como espaço de possível protagonismo delas e que, portanto, a elas pertencem, assim como aos jovens que as sucederão.

Valorizamos também a relação entre as gerações que permeiam a vida dos sujeitos. Por vezes, o conflito geracional que surge no espaço escolar advém de concepções de parte da direção, professores e/ou funcionários de escola que projetam nos estudantes perspectivas da sua própria juventude, vivida em épocas passadas. Isso implica outro desafio, que é o de possibilitar às juventudes viverem a escola segundo a experiência delas próprias. Isso implica da parte dos adultos, por sua vez, não oprimir ou aprisionar potencialidades artísticas, de comunicação, talentos e habilidades dos jovens.

A participação dos estudantes nesse espaço de representação também possibilita a aproximação das experiências dentro de uma democracia participativa, desde o processo eleitoral, a escolha das chapas, a propaganda eleitoral, as formas de se pensar a política, mesmo que não sendo partidária, até o que se pode e não pode propor e fazer ante a realidade plural da escola.

O estudante que em 2015 ingressou na composição do Grêmio Estudantil da sua escola sabe que foi todo esse processo que lhe possibilitou compreender e fazer escolhas que contribuíram para forjar a sua própria identidade durante a trajetória que ele percorreu até agora e que segue percorrendo, hoje, como professor. Ele compreendeu que todas as relações que se formam são políticas, intencionais. Mas, acima de tudo, compreendeu que essa experiência o orientou a almejar sempre espaços de pluralidade, de respeito mútuo, de vivências, ações e atitudes que visam à democracia como horizonte.

Para tanto, os espaços democráticos, como o do Grêmio Estudantil, se tornam oportunidade para os estudantes que, com base na representação, podem compreender a escola como o seu espaço e almejar mudanças para ela. Nesse sentido, sob a perspectiva de um sujeito que exerce sua cidadania, o movimento estudantil segue sendo aprendizado político.

Dessa maneira, compreendemos que a escola torna-se apenas um desses espaços de aprendizado da cidadania ativa, podendo haver outros, em sua comunidade, no seu bairro, na sua igreja, nos grupos em que os jovens estão inseridos. O exercício da cidadania possibilita refletir sobre nossas práticas locais, do dia a dia e globais, entrelaçadas a partir das relações sociais. Isso é o que nos dá a possibilidade de mudar a perspectiva de como vemos o mundo, de desejar e atuar sempre pela coletividade, pelo bem comum.